Por: Bruno Cirillo/DCI
São Paulo
As culturas geneticamente modificadas da soja, do milho e do algodão se expandiram quase 20% em 2011 e passaram a ocupar 30,3 milhões de hectares do território nacional. O Brasil manteve a segunda posição, alcançada em 2009, de maior produtor de transgênicos, atrás dos Estados Unidos (69 milhões de ha) e a frente da Argentina (23,7 milhões).
No mundo, a expansão da transgenia atingiu 160 milhões de hectares — 8% a mais do que em 2010 —, de acordo com informações divulgadas ontem pelo Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (Isaaa, na sigla em inglês). O resultado anual, por seu tamanho, surpreendeu os representantes da instituição, que garantem ser “a biotecnologia uma parceira do melhoramento da semente convencional”.
“Considerando-se os 16 anos em que a transgenia está comercialmente presente no mundo, essa foi a tecnologia mais testada e assegurada para o consumo alimentar”, afirmou o sócio-diretor da Céleres Consultoria, a representante da Isaaa no Brasil, Anderson Galvão.
Para o especialista Claudio Ushiwata, no entanto, “isso é uma mentira”. Engenheiro agrônomo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com mestrado pela Universidade de Agricultura e Tecnologia de Tóquio, Ushiwata vê o espraiamento das culturas transgênicas no Brasil como “um grave problema”.
“Quem está ganhando com isso é somente a indústria. Dizem que não há embasamento científico para os problemas [causados pela transgenia], mas esses produtos entraram no Brasil sem passar por testes exaustivos de segurança”, afirmou Ushiwata, que atua no segmento de alimentos orgânicos com uma trading e uma empresa de café “verde”.
Em conversa com o DCI, o especialista citou algumas mazelas que seriam causadas pelos produtos geneticamente modificados, como a maior resistência das pragas no campo, animais com aberrações genéticas e a imposição, por parte das companhias responsáveis pela transgenia, de mercadorias correlatas à produção agrícola, além da cobrança de royalties.
“Quando as sementes [alteradas] são plantadas, os agrotóxicos usados são comercializados pela mesma indústria. E se dá algum problema na lavoura, as mesmas empresas oferecem a solução”, disse Ushiwata. “Nos EUA, há produtores brigando na Justiça por conta da resistência que se criou nas pragas e doenças.”
O especialista falou em “estudos incipientes”, que só “mostram o lado bom” dos transgênicos”, tendo sido “direcionados pela indústria para se tornarem mais interessantes”.
Em maio de 2010, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) moveu ação contra a fabricante de sementes transgênicas e herbicidas Monsanto. O motivo: a empresa norte-americana estaria restringindo o acesso de produtores a sementes convencionais da oleoginosa.
“Estão impondo uma proporção de venda de 85% de sementes transgênicas para 15% de convencionais”, havia dito à Agência Brasil o então presidente da entidade, Glauber Silveira.
Brasil, Europa
Nas lavouras brasileiras, cerca de 82% da soja, 40% do algodão e 65% do milho, durante a safra de verão, estão geneticamente modificados, de acordo com a Céleres Consultoria, que representa a Isaaa. E o tempo para a aprovação de produtos transgênicos vem caindo no País — em 2006, a análise levava 40 meses; hoje, leva 18 —, segundo Anderson Galvão.
“O que a gente espera para os próximos anos, a curto prazo, é a consolidação da biotecnologia no Brasil, principalmente para o milho transgênico”, afirmou ele.
Países europeus como a Romênia, a Hungria e a Suíça baniram a transgenia de suas plantações. Em 2008, os romenos, principais milhocultores da Europa, proibiram o milho transgênico da Monsanto, alegando riscos à saúde e ao meio ambiente.
“A posição da Europa é meramente política, e não mais científica”, defendeu Galvão. Segundo ele, agricultores europeus estariam “clamando” pelo retorno das sementes modificadas.
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