Por: José Henrique Fabre Rolim
São Paulo
A fotografia tem alcançado ultimamente uma importância singular no circuito nacional especialmente quando se estrutura numa linguagem artística ganhando uma dimensão incontestavelmente requintada e de certa forma propondo reflexões em seus mais diversos níveis, partindo da condição humana na sua complexidade vivencial.
Recentemente, foi aberta em Paris, a mostra “Elogio da Vertigem – Coleção Itaú de Fotografia Brasileira” na prestigiosa Maison Européenne de la Photographie ( 7, Rue de Fourcy), promovendo a produção de notáveis fotógrafos que desenvolvem obras das mais variadas temáticas, focalizando a magia da imagem captada naquele instante magistral.
A exposição é formada por 88 obras de 42 artistas, como German Lorca, Geraldo de Barros, Thomas Farkas, José Yalenti, alguns dos expoentes dos anos 40 e 60, ao lado de valores consagrados da atualidade, como Vik Muniz, Rosangela Rennó, Miguel Rio Branco, Claudia Andujar, Mario Cravo Neto, Cris Bierrenbach e Rodrigo Braga. A coleção exposta traça um perfil da fotografia no Brasil, desde os lances vanguardistas dos meados do século XX com as linguagens revolucionárias adotadas pelos fluxos interpretativos da realidade humana com toda a sua dimensão complexa e essencialmente perturbadora e renovadora.
A retomada do lado experimental a partir do final dos anos 70 com as inquietantes transformações das técnicas e dos resultados alcançados nos últimos anos coloca em evidência a produção artística brasileira, apreciada internacionalmente.
Deve-se notar também que a Coleção Itaú teve início há mais de 60 anos, contando atualmente com 12 mil obras entre as quais pinturas, gravuras, esculturas, fotografias e instalações, complementadas com a numismática e a incrível Brasiliana.
O acervo do Itaú cobre praticamente todas as fases marcantes da arte brasileira, proporcionando uma visão bem expressiva e elucidativa com os confrontos e as diversidades das obras.
Paralelamente, foi lançado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, o livro “São Paulo Século XXI “, de Fausto Chermont, reunindo 67 imagens fotográficas captadas entre 1999 e 2009 que focalizam a cidade de São Paulo na sua grandiosidade, mas com um olhar artístico.
O centro da cidade é decifrado pelas lentes de Chermont sob os mais diversos ângulos, notadamente em períodos noturnos, onde o vazio das ruas, com seu lado sombrio, dá o tom ao conjunto de imagens.
As misteriosas tramas urbanas que foram se desenvolvendo com o correr do tempo, desde épocas remotas, em que São Paulo era uma simples vila da época colonial passando pelo crescimento com a fase cafeeira, para depois alcançar a industrialização e finalmente a consolidação como centro financeiro e cultural são características marcantes que refletem o seu percurso histórico.
Arquitetura eclética, com alusões a períodos anteriores, é vislumbrada pelos admiradores do centro da cidade, que curtem cada canto, constantemente objeto de estudos e confabulações de arquitetos, engenheiros, urbanistas, historiadores, sociólogos, filósofos — enfim, uma gama imensa de profissionais que se impressionam com a dimensão da metrópole que cresceu em demasia, perdendo aspectos importantes de sua memória, uma cidade que se amalgama num grande laboratório de experiências, com construções, planos, reformulações, demolições, zoneamentos, loteamentos, uma infinidade de procedimentos que inflam e transformam a cidade, um perfil de certa forma caótico que desafia tanto os administradores como seus próprios habitantes.
As imagens que compõem o livro perfazem uma visão poética, uma filtragem que realça o monumental, os efeitos impactantes dos ícones da paulicéia, como o Edifício Banespa, o Edifício Itália, a Estação Júlio Prestes, o Vale do Anhangabaú, o Teatro Municipal, as Galerias, o Viaduto Santa Ifigênia, o Copan, a Catedral de São Paulo, o Teatro Municipal, o estádio do Pacaembu, a Oca, o Parque da Luz, o Centro Cultural Banco do Brasil, a Praça da Sé, a Praça da República, o Trianon, o Viaduto do Chá, a Casa das Retortas, o Centro Cultural São Paulo, o imponente prédio Light, o pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera, enfim um percurso que permite compreender a cidade como um lugar a ser descoberto a cada instante, pelo próprio dinamismo do ambiente urbano que assimila os efeitos cromáticos da luz solar como do próprio anoitecer, uma cenografia sensível tanto às mudanças sutis como às radicais.
Seguindo os eventos que acolhem a fotografia, a exposição “Além do Silêncio”, de Hugo Burti, em cartaz na Galeria Mônica Filgueiras & Eduardo Machado (Rua Bela Cintra, 1.533), surpreende o espectador pelo lado insólito do tema ao enfocar a taxidermia como um canal que se conecta com o passado. Os arranjos ambientais fotografados são exponenciais, animais empalhados em espaços residenciais sóbrios, às vezes em desconexão com a estética, mas empenhado em certo sentido com um leve humor. Criando um clima curioso, cada imagem atrai a atenção do observador pelos reflexos como pelos arranjos do décor, gabinetes de curiosidades em moradias que são o retrato do cotidiano.
Fausto Chermont - Edifício Itália
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