Por: Alessandra Gardezani
São Paulo
Com uma carreira que se confunde com a própria história do samba, Leci Brandão — atualmente ocupante de uma das cadeiras da Assembleia Legislativa de São Paulo como deputada estadual — tem uma antiga ligação com a festa tradicional brasileira, o carnaval que, como define, “vem desde seu cordão umbilical”.
Nascida na cidade carioca de Madureira, sua paixão pelo samba nasceu na infância e com o passar do tempo teve seu amadurecimento. O resultado está em seus 23 álbuns lançados durante seus 29 anos de carreira. Sua insistência em participar desta festa popular marcada por esse estilo de música a transformou na primeira mulher a integrar a ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira, uma de suas maiores conquistas.
Em conversa exclusiva com o Shopping News, a cantora revelou quais as mudanças que faria nas regras que regem a disputa das escolas de samba, a importância da comunidade para as agremiações, a influência dos patrocinadores na hora de compor os enredos, entre outros importantes temas que envolvem o carnaval. Acompanhe.
Você sempre esteve envolvida com o samba, algo diretamente ligado ao carnaval. Como começou sua ligação com ambos?
A cantora Leci Brandão e a cidadã têm essa ligação desde o cordão umbilical. Porque tanto a minha avó como minha mãe foram pastoras da Mangueira, que era o nome que se utilizava em nossa época. Minha madrinha morava no Morro da Mangueira, onde minha afilhada reside até os dias de hoje. Escola de Samba na minha casa sempre foi um tema presente naturalmente nas conversas.
Qual é a importância cultural de um evento como o carnaval para o povo brasileiro?
Se tratando não de carnaval, mas de escola de samba, é uma coisa que vem oriunda de um povo pobre, ligado aos morros. Hoje a palavra comunidade significa algo assim, mas é antiga e naquela época seria comunidade, porque os desfiles das escolas de samba existem há muito tempo. Nasci em 1944, e muito antes de nascer havia escolas de samba. Haja vista, por exemplo, a Vai-Vai, que tem 80 anos.
E os sambistas? Como eram vistos e avaliados em épocas passadas?
As pessoas normalmente não sabem, mas os sambistas, principalmente os ligados à escolas de samba, eram vistos como marginais. Quem era sambista era preso. No tempo de Donga, Pixinguinha e João da Baiana, as pessoas tinham que fazer seus sambas escondidas nas casas de umbanda. Era uma coisa que misturava o terreiro, falava que estava acontecendo uma macumba. O sambista usava chinelo Charlote, calça de boca justa. A polícia inclusive fazia o teste da maçã para averiguar quem era sambista.
E como funcionava esse teste?
Os policiais ficavam com uma maçã e tinha que passar na calça, na altura do tornozelo. Se a maçã não passasse, o cara era preso porque a calça que ele usava tinha a bainha mais justa e isso era considerado como gente da malandragem. O sambista também usava camisa de seda, porque os malandros naquela época brigavam de navalha e a seda não deixa a navalha cortar.
No que o carnaval pode contribuir para transformar a vida de quem participa desta festa?
Antigamente os enredos tinham a responsabilidade de mostrar a história do Brasil. Recordo de enredos como o de Tiradentes, Casa Grande & Senzala, Palmares, Xica da Silva, Bahia de Todos os Deuses, Monteiro Lobato, Villa Lobos, entre outros. Aprendíamos na escola pública a história do Brasil através dos sambas-enredo. Aliás, havia uma lei de Getúlio que determinava que as escolas só podiam falar da História.
E as fantasias, como eram?
As peças eram cheias de riqueza e glamour. As pessoas eram pobres e podiam se fantasiar de rainha, marquesa, dama da corte. O povo encarnava isso de forma surreal. Era o momento em que o cidadão pobre podia ser uma figura importante. Era motivo de orgulho colocar uma fantasia que representasse uma figura importante, tanto que as pessoas se fantasiavam de manhã, iam na casa dos parentes mostrar a roupa para depois desfilar à noite.
E quanto às roupas dos compositores, havia algo especial?
As escolas procuravam fazer as roupas dos compositores e diretores de harmonia com peças sociais, que eles pudessem usar durante o ano. Você conseguia saber quem era da Portela, quem era da Mangueira, quem era do Império e quem era do Salgueiro pela cor da roupa. O chapeuzinho com a fita também era uma tradição. A Mangueira usava seu verde-e-rosa. O Seu Monarco, pai do Mauro Diniz, até hoje mantém o chapeuzinho de fita azul, para mostrar que é da Portela. Tinha também os sapatos, que eram de duas cores; era coisa de malandro. Sou muito saudosista dessa fase do samba.
Durante anos você foi comentarista do carnaval. Qual o balanço faz desta experiência?
Comentei de 84 a 93 no Rio. Depois, os de 2000 e 2001, e a partir de 2002 eu vim para São Paulo. Foi importante a partir do momento que eu consegui humanizar o desfile, ou seja, falar na transmissão televisiva quem eram as pessoas importantes de uma escola de samba, porque essas são peças fundamentais; os criadores dessa festa, fundadores das escolas e por isso sempre fiz questão de falar o nome de gente da Velha Guarda, das Baianas, dos ritmistas, diretores de harmonia, compositores, casal de mestre-sala e porta-bandeira, entre outros.
A televisão não mostra isso?
O que passou a acontecer com as mídias transmissoras do carnaval é que —de modo errado— querem falar de artistas e gente da elite. Na verdade, a espinha dorsal das escolas de samba são essas pessoas que sempre procurei citar o nome na transmissão, embora muita gente achasse que fosse na contramão do marketing e da mídia.
O desfile de uma agremiação vai além do período em que está na avenida, certo? Comente a apresentação das escolas durante aquele período proposto.
Quando conheci as escolas de samba, não existia essa coisa de carnavalesco. As pessoas mais importantes da agremiação eram o diretor de harmonia, o diretor da bateria e a presidente da ala das baianas. Não havia essa coisa chamada sinopse. Por exemplo, se decidisse falar do descobrimento do Brasil, o compositor ia para a biblioteca e fazia sua pesquisa. E saíam sambas fantásticos. Cada um fazia sua pesquisa, compunha seu samba, levava para a quadra e a comunidade da escola escolhia.
E quais razões levaram a mudanças?
O modernismo e as transformações fizeram com que a autenticidade fosse enterrada. Cada vez mais são escondidas, transformadas em uma coisa que eu não considero mais a autenticidade do samba. O que acontece é um espetáculo hollywoodiano que Steven Spielberg poderia assinar, mas não algo que tem a cara do samba. Tem carnavalescos que fazem versos para o samba-enredo. Isso tinha que sair da imaginação e da sensibilidade do compositor. Mudou tanto essa concepção que você não vê mais um único compositor no samba-enredo, você vê o nome de quatro, cinco, seis, dez. Parte disso é culpa do patrocínio, muitas vezes necessário para fazê-lo vencedor.
Houve crescimento dos gastos?
Hoje você precisa de alguém para pagar a feijoada, a macarronada, a bebida, a camiseta da bateria, o ônibus para trazer a torcida de fora, isso gera custos elevados. A despesa financeira é muito grande e os compositores que são bons mas são pobres não têm quase chances de vencer.
Até que ponto um patrocínio auxilia ou atrapalha?
Como o carnaval cresceu muito e virou esse espetáculo de Hollywood, as escolas têm que fazer alegorias com muita riqueza, glamour, luzes, com um pouco de tudo. Então se eu fosse presidente da Liga e tivesse poder, não iria dar o mesmo peso de nota para a alegoria que eu dou para o samba-enredo, bateria, evolução. Porque assim você dá acesso às escolas de samba. As mais pobres teriam condição de disputar o título levando um bom samba, uma boa cadência, evolução e harmonia.
Deste modo teríamos uma disputada mais justa para as escolas?
Da maneira como é feito atualmente, as escolas ricas acabam tendo maiores possibilidades. O patrocínio foi uma coisa inventada pela Imperatriz Leopoldinense, no Rio de Janeiro. Quando eles fizeram o enredo sobre o Ceará, o estado deu dinheiro à escola e a partir disso começou essa história de patrocínio, e virou moda. Hoje, sem os parceiros, você não monta carnaval nenhum. Para alguns carnavalescos a questão do patrocínio atrapalha muito. Você tem que inventar fantasias, alegorias e coisas que nada têm a ver com o carnaval.
Diante deste cenário mencionado, você acredita que o carnaval conseguirá retomar sua essência?
Não, acho que isso tem que acabar. Deveria ser proibido para que as escolas pobres pudessem ter condições de disputar o carnaval de igual para igual. Antigamente não tinha patrocínio. Você vestia a escola toda de cetim e fazia um belíssimo carnaval.
Você acredita que as escolas atreladas a torcidas organizadas de futebol conseguem melhores patrocínios por conta dessa união “futebol e carnaval”?
Não, porque inclusive tem escola de torcida que vai fazer o carnaval desse ano sem os ‘investidrores’. A Dragões da Real vai falar das mães, a Gaviões vai homenagear o Lula e a Mancha Verde vai falar do Odú Obará, do candomblé. Apesar das transformações, a espinha dorsal do carnaval continua sendo a comunidade. Tanto é que teve escola que acordou nos últimos anos e decidiu dar fantasias para a comunidade, que fora dos desfiles os deixa muito frios. A escola perde sua principal característica, sua identidade. Para não ficar sem isso, eles decidiram pegar o dinheiro que a Liga adianta e as verbas da televisão para doar fantasias à comunidade.
As madrinhas e rainhas de bateria muitas vezes são celebridades. Você concorda com isso?
Acho um horror. As madrinhas sempre foram escolhidas pelos componentes da bateria e eram meninas da escola, do bairro, pertencentes à comunidade. São meninas bonitas e que sabem sambar. Têm graciosidade e representam de fato a sua escola. Não posso concordar que uma rainha não seja nem do estado, não saiba onde fica a escola, e apareça só no dia do desfile cercada de seguranças e até trata mal outras meninas que fazem parte da comunidade. Algumas querem ficar totalmente destacadas, sem ninguém ao lado delas. Quem são elas para proibir que a comunidade venha sambando ao lado delas? Isso é um absurdo. Por isso parabenizo a escola de samba Beija-Flor, e a Mangueira também, que mantêm meninas da comunidade como rainhas.
E aqui em São Paulo?
Aqui a Vai-Vai normalmente tem rainhas que fazem parte da comunidade.
Em termos culturais, que escolas de Sâo Paulo vão trabalhar temas inusitados?
Não gosto de fazer escolhas, principalmente entre as escolas de São Paulo, primeiramente porque fui comentarista durante oito anos e todas têm um carinho muito grande por mim. Mas de modo geral, este ano a africanidade estará presente na avenida. Muita gente vai falar de orixá, candomblé, da importância da África.
E qual análise você faz para o carnaval paulistano deste ano?
Temos enredos importantes na questão de gênero, como a Vai-Vai, que vai falar da força feminina no progresso social e cultural do Brasil. Gaviões fará homenagem ao Lula; a Mocidade vai falar de Jorge Amado. A Tucuruvi mostra a África. A Mancha Verde vem com os pais-de-santo. A Tom Maior vai homenagear o presidente Marquinhos, que faleceu no ano passado; a Império de Casa Verde vai falar sobre a Ótica; a Rosas de Ouro vai homenagear o Reino dos ‘Justus’, com Roberto Justus. A Pérola Negra vai falar de Itanhaém; a X-9 vai mostrar o povo sertanejo; Águia de Ouro vai falar do tropicalismo, e Gil e Caetano devem desfilar. A Camisa traz o amor.
Entre o Rio de Janeiro e São Paulo, ainda existe muita diferença carnavalesca?
Não, o que acontece é que a verba do Rio de Janeiro é infinitamente maior. Mesmo que a capital paulista seja mais importante economicamente, as escolas de samba ainda não interessam ao empresariado.
Além das manifestações paulista e carioca, comente essa festa em outros centros brasileiros.
Não posso falar do que não conheço direito, mas a Bahia tem os trios elétricos e o Ilê Aiyê. Frevo e maracatu vemos em Pernambuco. O pessoal do interior da Bahia faz o samba de roda. O Bumba Meu Boi fica concentrado no Maranhão, junto com os blocos de índios. A Região Norte é cheia de escolas de samba, no Amazonas, Pará. Isso você encontra no Brasil inteiro, todos os estados têm escolas de samba.
Na hora do desfile, em que o espectador deve ficar mais atento?
É diferente para quem assiste na avenida e aos que acompanham pela televisão. Na avenida o público vê o todo, é um privilegiado, porque acompanha toda a evolução e todos os detalhes. A televisão infelizmente fica muito preocupada em mostrar celebridades. Quando aparece um queridinho da mídia, o close fica naquela pessoa durante dois minutos, principalmente se forem mulheres peladas. Tinham que mostrar mais a cara das baianas, dos membros da bateria, as passistas, que sambam muito bem. Fico irritada porque mostram pessoas que aparecem na televisão 363 dias do ano. Nessa época de carnaval tem é que mostrar sambistas. O samba tem que ser mostrado. O telespectador fica muito refém da transmissão.
E nesta história de samba e carnaval, qual foi o desfile que marcou época?
Um só fica difícil, mas posso destacar quatro do Rio e quatro de São Paulo. Dos cariocas, Xica da Silva, do Salgueiro; Braguinha, da Mangueira; Kizomba, da Vila Isabel e Ratos e Urubus, da Beija- Flor. De São Paulo teve o enredo Orum Aiyê, da Vai-Vai; teve um ano que a Nenê de Vila Matilde falou da raça; teve a Diáspora Africana, da Rosas de Ouro; e o enredo da Camisa Verde e Branco chamado Negro Maravilhoso.
Divulgação
"O que acontece é um espetáculo hollywoodiano que Steven Spielberg poderia assinar, mas não é algo que tem a cara do samba", diz Leci Brandão
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