Por: Carla Machado
São Paulo
Considerada uma das maiores cantoras de todos os tempos, Elis Regina, conquistou públicos no Brasil e no exterior. Caracterizada por muitos colegas como temperamental, e do tipo que não levava desaforo para casa, a eterna Pimentinha iniciou sua carreira ainda aos 11 anos de idade, em um programa de rádio para crianças, em sua cidade natal, Porto Alegre.
Seu primeiro lançamento aconteceu cinco anos mais tarde, dando passagem para o que aconteceria em 1965, com a apresentação do sucesso “Arrastão”, composta por Vinícius de Moraes, no festival de música da TV Excelsior, no Guarujá (SP), marcada pela presença de palco inconfundível. Show, que na opinião do crítico musical, Tárik de Souza, foi um “divisor de águas” na carreira da artista, que há 30 anos deixava milhares de fãs órfãs com a sua morte precoce, aos 36 anos de idade, em decorrência do uso excessivo de cocaína.
Tárik explica que, no início a tentativa dos produtores da época era transformá-la em uma nova Celly Campelo, que por sua vez foi a percursora do rock no Brasil. “Ela achava aquilo pouco e foi para uma área mais ligada à Música Popular Brasileira (MPB)”. Nesse momento, segundo ele, Elis se envolve com a Bossa Nova e é relançada no Beco das Garrafas, no Rio de Janeiro — um corredor de casas noturnas onde se apresentavam os melhores artistas da Bossa Nova na época. “Lá, ela fez seu doutorado em música popular brasileira”, diz. “Aprendeu um novo repertório, se enturmou com músicos diferentes, ganhou outra dimensão, e foi defender a canção ‘Arrastão’ no Festival”.
Voz na repressão
Um dos sucessos mais marcantes da carreira de Elis Regina foi a composição de João Bosco “O Bêbado e a Equilibrista”, de 1979. Com forte apelo político em razão das repressões sofridas no Brasil com a Ditadura Militar (1964-1985). Filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), a cantora não chegou a ser exilada do País, a exemplo de artistas como Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil e Caetano Veloso, nem sofreu com torturas ou prisões, porém foi obrigada a cantar o Hino Nacional, como forma de “acertar as contas” com o exército.
“A política no caso da Elis Regina não interferiu, porque ela era uma cantora tecnicamente perfeita para qualquer música que cantasse”, afirma o crítico ao lembrar que a cantora interpretou músicas políticas, românticas, abriu seu repertório para Roberto Carlos e até para músicas internacionais. “Era uma cantora excepcional. Tudo que cantava ganhava uma dimensão muito grande. Além da dramaticidade que tinha quando se apresentava, que dava uma força muito grande às canções”, completa.
Tudo a seu favor
Para Tárik de Souza, além da qualidade artística que Elis Regina possuia, um dos motivos que conferiram tamanha a dimensão à interprete, foi ter a mídia a favor da música popular de qualidade. “Uma coisa que não existe mais no Brasil. Depois de interpretar ‘Arrastão’, foi logo para os shows e em seguida ganhou o programa ‘Fino da Bossa’, que ela apresentava ao lado de Jair Rodrigues”, explica. “A partir do momento que ela apareceu na televisão, por meio dessa vitrine, ela pôde apresentar toda a sua carreira, e realmente se transformou em uma cantora de massa. O que não acontece mais”, enfatiza ao lembrar também da importância dela para lançar compositores. “Ela prestou muito atenção em tudo. Sabia escolher o repertório, as músicas que gravaria, e de quais compositores. Ela foi dona de sua carreira”.
Legado
Apesar de não estar esquecida, porém, não ser lembrada pela grandeza que teve, na opinião de Tárik, atualmente Elis é cultuada por pessoas que a conheceram e por uma pequena faixa de pessoas jovens que procuram sair da mesmice e da cultura de massa. Seu legado é muito grande. “Ela gravou um repertório importantíssimo da música brasileira, lançou músicos de altíssimo nível, e que tiveram grande repercussão na voz dela”, afirma. “Ela deixou uma grande herança cultural estética, em uma carreira muito bem feita”.
Quanto aos seguidores do trabalho de Elis, o crítico afirma que sem dúvida a filha da cantora, Maria Rita, herdou o timbre da mãe, o que não é possível identificar em outras cantoras da atualidade. “Embora ela não grave o mesmo tipo de música, Maria Rita tem as mesmas característica da maneira de cantar da mãe”.
Além de Maria Rita, seus outros dois filhos seguiram os passos musicais de Elis. João Marcelo Bôscoli, de seu primeiro casamento com Ronaldo Bôscoli, é produtor musical. Pedro Mariano fruto do seu segundo relacionamento, é cantor e compositor.
“A música é meu motor e meu combustível, meu arco e A)minha flecha, e minha solidão. Cantar é um ato que se comete absolutamente só, e eu adoro”. (Elis Regina)
Divulgação
R$ 2,000
R$ 1,920
R$ 1,920
55887
12598.55
2561.56