Por: Camila Abud
São Paulo
Várias estreias que estavam previstas para este fim de semana foram remanejadas pelas distribuidoras de filmes, que perceberam a concorrência com o calendário meio apertada, ao estrear na tela grande o badalado longa-metragem francês “O artista”. O filme é a grande aposta dos ‘entendidos’ em premiação da sétima arte para levar a melhor no Oscar 2012, e assim repetir o feito por conta da cerimônia do Globo de Ouro, em janeiro passado.
Até aí, certamente você, um entre tantos cinéfilos brasileiros, já deve estar cansado de saber. A obra foi a grande vencedora do Globo de Ouro de melhor filme em comédia ou musical, ator (Jean Dujardin) e trilha sonora. Agora, o longa compete em 10 categorias do Oscar e chega em um formato ousado para os dias de hoje, em que o domínio da proposta de tecnologia avançada (high-tech) tem mudado o conceito do mercado audiovisual, com a avalanche de obras em 3D. Nada disso, agora a ideia é justamente revolucionar o mundo moderno, com a volta às origens. Cômico, não é?
Praticamente mudo e em preto e branco, “O artista” se passa na Hollywood de década de 1920 e o barato dessa história é que a película chega completamente diferente do que os conhecidos como enlatados de Hollywood têm apresentado em termos de ficção. A fita explora uma estética simplista, mas reforçada no bom gosto. Como era antes a temática das salas de cinema, em apenas uma seleta camada social tinha acesso, logo viravam grandes eventos. Os filmes tinham outro show à parte, em alguns casos. Orquestras fantásticas acompanhavam algumas exibições e os músicos tinham de transmitir os momentos do filme desde uma paquera, a angústia, o desespero e alegria.
Em termos de comparação de linguagem, também é possível fazer referências com “O artista”. Há quem diga que lembra alguma coisa do impactante “O escafandro e a borboleta”, no sentido de formas de comunicação da mensagem feita sem propriamente o uso da língua falada. Neste caso, o drama vem decorrente de um problema de saúde, em que uma rara paralisia obriga certa personagem a aprender a se comunicar piscando letras do alfabeto, e forma palavras, frases e até parágrafos. Um mundo baseado na imaginação e memória. Afora a questão do canal da comunicação, “O escafandro...” e “O artista” seguem linhas diferentes. Este último vem mais com um clima retrô, totalmente baseado na época das melindrosas e retrata a volta do cinema mudo como opção para um público mais habituado a informações mastigadas e de fácil assimilação. O curioso é justamente pensar sobre este aspecto da volta ao passado, que vivia a questão da revolução do cinema mudo para o cinema falado, como um marco — inclusive histórico.
Afinal, quem diria que em pleno ano de 2012 a história do cinema traria de volta um gênero tão famoso no passado, que inclusive abriu as portas dessa bilionária indústria, com os cartazes de frases feitas para fazer um link com a informação passada na tela, em raros momentos de troca com o espectador? Em um mundo multimídia, em que as informações são bombardeadas a todo instante, e num piscar de olhos, a ousadia de investir em uma obra com esse perfil já vale o ingresso.
O diretor de “O artista”, Michel Hazanavicius, que tem ao seu lado a mulher — a atriz Bérénice Bejo, indicada para o Oscar de coadjuvante —, está com tudo. Coroado com o destaque de sua obra, ele ganhou os holofotes a contar a história do astro George Valentin. Na trama, ele precisa enfrentar a crise na carreira causada pela chegada do cinema falado, enquanto vê sua vida, junto da de seu fiel escudeiro, interpretado por Russel Terrier Uggie, caminhar para o esquecimento. Por outro lado, a amiga Peppy Miller (Bérénice Bejo) ganha com a nova tecnologia cinematográfica se deslumbra com o que vem por aí.
Impossível, inclusive, não associar a ideia de ir ao cinema conferir um filme praticamente mudo, sem pensar em um dos maiores artistas mundiais, o gênio da raça Charles Chaplin. Com uma mescla de situações dramáticas e ao mesmo tempo cômicas, ele realizou grandes projetos e desenvolveu um verdadeiro mundo imaginário — sempre explorando questões políticas e sociais.
Boa e velha disputa
Enquanto a frase do músico Carlinhos Brown ecoa no Brasil, de que “trocaria o Oscar pela paz no Estado da Bahia” — ele disse isso antes da confusão em função dos protestos dos policiais, em Salvador, a boa e velha disputa pela estatueta dourada está com os dias contados. Não, não se trata do fim da cerimônia do tapete dourado, mas da proximidade da data do evento, que será no dia 26 de fevereiro, em Los Angeles, na Califórnia (EUA).
Vale a lembrança de que em termos de disputa, “O artista” está envolvido em uma situação acirrada, ao concorrer em 10 categorias com “A invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, com 11 indicações ao Oscar deste ano.
Divulgação
Praticamente mudo e em preto e branco, "O artista" se passa na Hollywood de década de 1920 e o barato dessa história é que a película chega completamente diferente do que os conhecidos como enlatados de Hollywood têm apresentado em termos de ficção
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